terça-feira, 16 de agosto de 2011

Pálpebras fechadas (poesia)



Abri os olhos e vi ratos, um beco imundo e um cano por onde saía mijo e merda.




Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos:
E a vi com seus cabelos drapejados pelo vento e senti o perfume dela me inundando as narinas.




Abri os olhos e vi gente matando gente, estupros, pedófilos e tarados.




Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos:
E ela tenta me fazer sambar um samba e eu morro de achar graça com a minha inapetência para danças.




Abri os olhos e vi o Dalton Trevisan jogando pôquer com o Charles Bukowski e dois travestis defecando num cantinho numa esquina.




Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos:
E ela pede para eu comprar um celular e eu invento uma esfarrapada desculpa e a gente se queda rindo da minha bobagem.




Concluo que é melhor sonhar de olhos fechados:
E plic, plic, plic... bato as pálpebras e fecho os olhos para nunca mais abri-los.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Morena (poesia)


Entra na pizzaria uma tentação morena
Corpo semi-desnudo revelando partes da sua carne da cor produzida pelo sol abrasador de Manaus
Trazia entrelaçada ao seu braço vossa companhia


Uma voz chama-a
E a tentação larga da companhia e vai ter com o dono da voz - um homem de uns 50 anos -
E o senhor lhe faz cosquinhas nas nesgas de pele que ficam à mostra


Papo vai, papo vem e o homem lhe oferece um picolé de manga
- como na poesia do Antonio Cícero, A Onda -
E a tentação lhe fala que são 30 reais para transar
E o homem diz que tudo bem


E a tentação chega baixinho pra sua esposa e fala
vai pra casa, agora, que vou comer o tiozão
Sob veementes protestos da mulher, Carlos Wagner pega o cara do picolé pela mão
E vai embora falando assim: chore não, Joyce. Isso vai virar leite pro nosso filho
- falou ele em alto e bom som para todos na pizzaria ouvirem -

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Recortes do cotidiano (micro contos)


(Barbeia)

  • Olha que negócio feio da porra! A mulher com as pernas cabeludas!
  • Mas isso é da natureza dos mamíferos. Pelos são normais. A natureza, meu caro, é irascível.
  • Pô, mas uma giletinha custa uns dois reais. E vai dizer que você não gosta de uma perna lisinha....
  • É, gosto, sim.
  • Então “inrascível” é meu pau cheio de pentelho preto, certo?
  • Pentelho preto? Porra, bicho, uma giletinha custa uns dois reais.


(Sem palavras)

  • Nhã, nhã, dan, dan, dan...
  • Sai daqui mudo filho-da-puta.
  • Dan, dan, dan, ah, ah, ah...
  • Eita mudo chato do caralho. Sai daqui, porra, vai se foder que vou pegar meu ônibus.
(o mudo escreveu numa placa para eu ler, assim: sou mudo, não surdo. escutei tudo. queria devolver os R$50 que caiu do bolso dele).


(Smells like teen spirits)

  • Quanto você tem aí?
  • Não tenho dinheiro, não.
  • Tens um perfume cheiroso? Uma alfazema?
  • Não. Mas tenho um desodorante de sovaco.
  • Puta merda! Mas vamos mesmo assim, pois gostei de ti. E pelo menos meu sovaco ficará cheirosinho.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Serpente (poesia)


Ela me serpenteou - sem intenção de querer fazê-lo -
E laçou cordas em volta do meu pescoço
Que se apertavam cada vez mais e mais
Mas não era um arrocho pegajoso
Tinha um quê de gostoso
De verdadeiro


Tal qual cascavel que exsuda veneno
Ou jiboia que encanta com seu olhar e sua voz sibilante
Ela me envenenou e me hipnotizou
E me fez uma jura estranha. Assim:
me terás somente hoje, como se ela fosse de éter que entorpece depois evanesce
Ó “vaca profana das divinas tetas”:
Ejetais na cara dos que nada sabem das mulheres
O significado ardido e espinhoso de se querer ter e não poder se desfrutar


Querer ter e não poder é cruel
Derrama-se saliva pelos cantos da boca
E balbucia-se palavras peremptórias de um afã
De um afã que sai arfado
Querendo, mas não conseguindo, explodir num grito, assim:
VOCÊ É MINHA
Mas nada é do que jeito que a gente quer
E você, Serpente, decididamente não és minha
Nem estais na minha
Nem és de ninguém – como na “Quadrilha” do Drummond

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sono poético (poesia)



Com sono a gente não escreve poemas. A gente debulha uma mixaria aqui e outra acolá.


Com sono não há soneto. Nem pensar. Fazer soneto já é de uma complexidade enquanto sóbrio
- imagine-se bêbado por Morfeu -


    Se tens fértil mente pensante, ó Olavo Bilac fake, mestre da prosódia ridícula e da rima fácil e burlesca, guarde seus versos para si mesmo
    Só imagino um homem (já morto) fazendo sonetos à antiga
    Com a desenvoltura não-piegas
    Que lemos em As Horas de Katharina


Sono é sonar de improbabilidades poéticas
Favor escrevais vossos poemas lúcido quiça translúcido
Mas nunca de porre ou com os olhos por fechar
Poupem-nos da vergonha alheia de criticar um verso em público
E se dizer: isso é obra do impaupério artístico causado pela ausência de boa dormida


Tolentino bebia e cheirava cocaína (isso é fato)
Mas acredito que ele concebia seus elegantes sonetos
Sempre depois de um bom banho tomado e as energias revigoradas
Afinal uma mente ébria não comporia algo como:
“... é nesse encontro entre a paleta e a partitura
que uma cidade existe tal qual imaginei-a” (Bruno Tolentino, 2006, em A Imitação do Amanhecer)

terça-feira, 5 de julho de 2011

A mulher do outro (poesia)


Ela não tinha um rosto excepcionalmente lindo
Nem seios estupendos
Nem pernas grossas
Nem bunda grande e firme
Nem era alta
Magra
Gorda
Ela não tinha nada fisicamente demais que justificasse o que eu sentia por ela


Lascívia despudorada
Despudor orgasmático
Orgasmos de porra viscosa
A porra que de mim verte e que a imagino toda na boca dela
Tudo isso por nada
Nada


Um fundo de razão haveria de existir
Para que meus sentimentos, vis que fossem, pudessem se justificar
E eis que achei uma causa Machadiana: inveja
Ela era dele e não minha
E aquela cara de safada que ela, disfarçadamente, fazia para mim
- eu imaginava isso -
Entregava o verdadeiro motivo pelo qual eu pensava tudo aquilo dela:
“Tá na hora de você arranjar uma mulher para si”, reverberava meu inconsciente

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Escapulário demoníaco (poesia)


O Capiroto também usa escapulário
Faixinha de pano preto
Escritos para otários.


Falando só absurdos
Quiça coisas boas para os mudos
Ou bad things para os surdos
- qual seria a melhor rima para “os mudos”?


O Cão quem acredita no Satanás
Trás Cás, Belzebu, Pé-de-Bode
Imagem de quem leva e não faz
E Deus que também não pode
Esse nem sai de cima, nem fode.


Pois entre outro e um
Prefiro o Chifrudo ao Barbão
Enquanto um diz pra não se melar
O outro diz “O inferno é Open Bar”.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Eu, ela e ele/a (conto)


Éramos puro impulso. Eu e N pensávamos e fazíamos sexo em qualquer ocasião e por qualquer motivo. Acho que era pelo fato de sermos amantes fugazes, fortuitos. Verdadeiros stalkers. “É hoje, N?”, “É”, N respondia. E fodíamos desbragadamente como se saciando uma fome pelo corpo um do outro. E tinha que ser tudo saciado naquele instante, pois não éramos namorados, nem noivos, tampouco casados. Eu fodia com N. N fodia comigo. Assim mesmo. Simples.
Nos concedíamos quase todo tipo de sexo “pervertido”. A lista de fetiches era gigante: dominação, sado-masoquismo, fist fucking, sexo oral, anal, menáges à trois, voyeurismo, exibicionismo. Em se tratando de foda já havíamos feito de tudo. Ou melhor: quase tudo. Voltávamos de um bar e N foi me deixar em casa. Estávamos meio bêbados, mas ainda lúcidos. De repente paramos o carro ao lado de umas prostitutas. Algumas belíssimas outras nem tanto. N e eu em sintonia perfeita, nem precisamos falar nada para nos entendermos: ela parou o carro, eu baixei o vidro e chamei uma prostituta loira, muito bonita, vistosa, para conversar com ela. Perguntei quanto era o programa e ela disse que se fosse com nós dois seriam R$100,00. Depois disso ela se revelou. Ela disse algo mais ou menos assim: “mas eu sou menino. tenho pau”. Dispensei gentilmente o travesti, levantei o vidro esperando que N fosse embora dali. Para minha surpresa ela me instigou a sairmos com o travesti para um motel. Eu, ela e ele(a). Se vocês acham que eu titubeei, caros leitores, estão todos enganados. Com a conscentimento de N, baixei o vidro, chamei o travesti de volta, combinamos preço e a duração do programa e partimos os três para uma aventura de picardia sexual que para nós dois, N e eu, foi muito marcante.
Aviso: é preciso despir-se de qualquer preconceito para continuar essa leitura. Não recomendo que sigam adiante os homofóbicos, os que não gostam da ideia do amor livre, os muito religiosos e àqueles travestidos de qualquer ranço machista/feminista/moralista.
Durante o trajeto fui conversando com Lídia (o nome de batismo não condiz com a realidade dos seios bólidos, da pele bem cuidada e do rosto de traços feminos. portanto, não irei citar o nome real dela(e)). Fui pergutando banalidades para quebrar a capinha de gelo que a nova experiência tinha criado sobre N e eu. Lídia disse sem ruborizar que já “tinha comido muito cu de coroa macho”, que já “tinha feito muito homem de mulherzinha com o cu aberto para cima” e que saiu poucas vezes com casal de menino e menina. Lídia disse que a maioria dos seus clientes são homens, senhores com alguma idade e família já estabelecida que adoram o visual de uma mulher fodendo-lhes o cu, rasgando seus rabos com um pau gigantesco mas sem barba e pelos e com a vantagem clara de ter seios comprimindo-lhes as costas na hora do coito de quatro. Quebrada a capinha de gelo, Lídia perguntou qual era nossa liga. Falei que não éramos um casal, que éramos amigos coloridos que apreciavam boa foda e que estávamos querendo experimentar um à trois com um travesti. Lídia ainda perguntou se valeria tudo na hora H. N prontamente disse que haveriam regras e muitas camisinhas.
Chegamos ao motel e entramos no quarto. N ditou em um tom generalesco três regrinhas: nem eu, nem ele vamos chupar seu pau; só se enfia um pau num cu ou numa buceta com camisinha; você, Lídia, não chupa minha buceta nem beija na boca de ninguém. Eu e Lídia nos entreolhamos e fizemos sinais de que entendemos o recado. O quarto tinha dois banheiros e fomos tomar banho eu e N e Lídia, sozinha. Saí sem roupa, pois sabia que dali a pouco ou eu teria meus pudores enterrados e jogado pra puta que o pariu ou vestiria minhas roupas e esperaria um homem de verdade vir até ali e dar cabo da situação. N era uma poesia de rimas fortes e suaves ao mesmo tempo: pele alva, gostossísima, seios que todos queríamos tê-los nas nossas bocas ou segurando-os forte enquanto N cavalga nossos paus como uma amazona. Lídia era assim: uma mulher sem tirar nem por: cabelos loiros e lisos, seios siliconados, rijos e com temperância, bunda escultural, mas com um pau muito maior que o meu e provavelmente maior e mais grosso que o do leitor que está achando esse conto uma viadagem sem limites no lugar de uma buceta. Quando vi o pau de Lídia, pensei que se N mandasse ele(a) me comer o cu eu estaria literalmente fodido. Começamos os três na cama, eu e N nos beijando e Lídia se masturbando, deixando seu pau duro para a eventualidade iminente. Nesses instantes ninguém precisa falar muito para que todos se entendam. N trepou sua buceta na minha boca e Lídia, num arroubo, começou a me chupar o pau. Eu tentei compreender a delícia de ter prazer fazendo sexo oral em N e recebendo boquete ao mesmo tempo. Indescritível. Trocamos de posição. Preliminares ainda. Deitei N de costas na cama, sentei-me sobre seu peito e empurrei meu pau na sua boca, sufocando-a ao mesmo tempo que Lídia fazia uma festa oral comprimido a língua contra a pudenda feminina parte que o travesti desejava ter. Paus tesos demais, bucetas úmidas de tanto exsudor, géis lubrificantes à vontade para besuntarmos os cus que estavam para serem comidos e fomos ao encontro das nossas mais recônditas vontades. N estabeleceu-se como uma espécie de chefe que comandaria todo a putaria.
Num impulso N disse: “meu bem” (apontando o dedo em riste na minha cara) “fique de quatro e abra bem seu cu, pois vamos meter”. Obedeci e senti o o friozinho do lubrificante em abundância inundando-me. Primeiro um dedo. Não sabia de quem, mas isso não importava. O dedo ia freneticamente comendo-me, abrindo espaço para coisa mais calibrosa. De repente a sensação de uma boca envolvendo meu pênis. Pela pegada percebi que era N que estava se fartando com sua boca em mim. Pensei por um segundo que se N estava a me chupar o pau e as bolas meu cu estava desguarnecido. De repente aquela estocada profunda me fez gemer alto de dor e pedi para Lídia ir com mais calma. O prazer anal às vezes exige sacrifícios difíceis de se explicar de modo racional. Trocamos todos de posição. N de quatro com a bunda totalmente empinada, louca para receber pela buceta e depois pelo cu. E ela teve o que seu corpo pediu. Fui até próximo de sua boca e ela babujava meu pênis de saliva com um apetite insaciável. E Lídia trabalhava muito bem, enterrando sua pica gigante na buceta de N. Mas eu costumo falar que pela buceta qualquer pau, com carinho, entra. Extasiei-me de prazer quando N chorava de dor ao sentir as poderosas estocadas que Lídia empregava na sua bunda. Um rendez-vous delicioso. Ficávamos pouco tempo em cada nova posição que N coreografava com um intuito muito elevado de seu modus pornografiorum. Gozamos os três quase ao mesmo tempo, sem camisinhas, um na boca do outro, em um carrossel sexual muito delicioso. Deitados na cama eu estava chupando a buceta de N alargada pelo pau de Lídia, Lídia estava me chupando e ela própria se masturbava. Depois daquele festival de porra, tomamos banho, comemos tudo o que havia no frigobar, pagamos Lídia, fomos deixá-la no kitnet onde ela morava e N me deixou em casa. Eram 4:00h da madrugada de um domingo qualquer. Antes de dormir rezei o Pai Nosso e a Ave Maria. Eu tinha exatamente duas horas para descansar antes de encarar a primeira missa do dia que eu iria rezar.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Será? (poesia)


Num errático sábado, oito da manhã, estava a tomar café numa padaria
Como é meu costume, observando os transeuntes, vi uma Deidade
Uma mulher muito bonita
Elegante, de óculos escuros e vestida de preto
- como se em luto simbólico por alguém que ainda não morreu -
Magérrima em partes do corpo que combinam com falta de carne
Mas com o excesso gostoso de gordurinhas onde, nós homens, adoramos pegar
E morder e apertar
Ela era uma espécie de diva da periferia


Pensei: “essa porra deve ser casada”
E de fato o era
O esposo era um primor de má educação
Uma doce mistura de gorila com chimpanzé
Ele se instalou à mesa e avolumava sua presença
Ora com esporros ou murros leves
Um gestual grotesco, desprovido de qualquer resquício de intelectualidade
E a Deidade, constrangidíssima, baixava a cabeça


Livre arbítrio existe para decidirmos
Com quem deveríamos nos relacionar ou continuar uma relação
O negócio anda mal? Separa-se, oras
Seu cônjuge é mal-educado, te espanca, te humilha?
Mande ele se foder
Mas vendo a Deidade sendo rebaixada pelo símeo
- e calada ou resignada -
Penso como foi cruel a epifania que diz “toda mulher gosta de apanhar”
Será que o Nelson Rodrigues estava com a razão?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O olho azul (poesia)


“Linger on, your pale blue eyes” (Lou Reed)

Entrei em uma lanchonete com minha namorada.
Durante a fila do caixa notei que uma menina com grandes olhos azuis
chorava copiosamente.
Pensei: deve ter acontecido algo muito ruim.
E ela, numa olhada de soslaio, notou que eu a percebia.
Dei um tchauzinho e fiz uma careta boba qualquer.
Ela sorriu um riso bem tímido, mas que já trouxera algum alento para aquele mar de lágrimas que do olho dela escorria e borrava a maquiagem e a enfeiava.
Pensei em ir até ela e puxar alguma conversa fiada, contar uma piadinha, sei lá...
Mas eu estava acompanhado. E mulheres são, assim, meio misteriosas.
Melhor não, pensei. Depois isso vai acabar em confusão.
Saí da lanchonete de estômago cheio, de mãos dadas com ela e um pouco triste,
confesso, por ser frouxo demais.