quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ode (poesia)


Ode à galhada do veado
Fodam-se os maridos traídos e que dão showzinho
    - que se fodam - em uma foda triple

Traição só ocorre quando algo não vai bem, certo?
Não. Afinal, o que é traição?


Fodam-me o cu ao ver uma porra dessas:
A mulhera chorar por um cara que a humilha e a depaupera
Em via pública, com a gurizada a apontar, zombeteiramente, que ali há um corno


Engraçado é que o homem se exaspera
Como se ele fosse detentor da razão absoluta
Pois pare de tratar vossa mulher de modo vil, como uma puta
Ouça Chico Buarque - puta dum clichejaço -
Subvertenha a espera pela confirmação do chifre
E vá viver sua vida, plena e resoluta


Ode aos poetas, artistas metalinguísticos, que se escondem sob a capa de cientistas
E que produzem coisas belíssimas como “Cravo branco”
- que é um ode máximo à “traição”; coisa Shakeaspereana -
    E que quase me remete ao que presenciei ontem à noite:
    Por pouco eu não via com meus olhos verdes que a terra há de comer
    O careca levar um tiro do jovem que tirou “Nina, aquela puta safada” dele.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A medida da saudade (poesia)


Qual a medida da saudade?
Eu sei:
três pares de brincos na minha mesa


Olho para os brincos e os imagino na orelha dela
E imagino minha língua roçando seu rosto
E ouço ela me dizendo: “pare, homem de Deus”


“Ouço” entre aspas
Pois a saudade é uma alegoria imagética
As saudades são para sempre?
Infelizmente não sei

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Recortes do cotidiano (micro contos)


(Prosaico)

  • Quantos anos você tem?
  • 33.
  • Eu tenho 56. Mas até hoje uma das coisas que mais gosto é sexo.
  • Hum...
  • Mas minha atual esposa é bacana, participativa, cuida da casa e tal... Mas no sexo ela é fraquinha.
  • E como o senhor faz?
  • Aí tem as de fora, né?

(Coisa de bicha)

  • Isso em você são brincos?
  • Sim, são.
  • Mas brinco é coisa de mulher, certo?
  • Talvez.
  • Ou coisa de viado.
  • …
  • No meu tempo viado não se sentava junto com homem.
  • Época ruim essa a sua, hein, senhor?
  • Não entendi.
  • Por isso. Tá explicado: todo machão além de surdo é ignorante.


(Toma)

  • E essa chinela? Quanto custa?
  • R$30,00.
  • Mas aqui não tem chinela para macho, não, é?
  • Quando você entrou aqui tava escrito o que na placa: Casa do Sertanejo ou Casa do Fresco?
  • Casa do Sertanejo.
  • Então pronto. Aqui só se fabrica coisa de homem macho.
  • Mas eu não vi nada tamanho 44.
  • É que para viado do pezão tem outra loja. Aqui ao lado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Faxina (poesia)


Sete da manhã
E aquela maldita fresta de luz solar insiste em vazar do telhado
E cuspir um bom dia gostoso na minha cara preguiçosa
Olho para baixo e alcanço meus óculos
Enxergo um tufo de cabelos escuros, embolados, a ir e vir pelo chão do meu quarto
Aparo o tricobenzoar com a mão e desnovelo-o


Daí enrodilho um fiozinho em meu dedo indicador e levo-o ao nariz
Numa vã tentativa de respirar algum evanescente perfume
- resquício de uma bespa -
E nada, nada... Só o cheiro da queratina inodora


E começo uma faxina sem-vergonha em meu quarto
Varro tudo sem muita disposição e logo outras tantos tufos se juntam ao primeiro
“é muito cabelo”, penso eu
E penso também que aqueles resquícios dela são lembranças
De uma noite gostosa
Que reverberará eternamente enquanto durar tudo o que sinto por ela
- e vos garanto que o que sinto não é pouco -


E lembro-me da gente compartilhando os fones de ouvidos
E abraçadinhos
E ouvindo Maria Rita

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vermelho de bolinhas brancas (poesia)




Ela naquele vestido – linda
Como diria o Antonio Carlos Viana, branquinha da “cor da graviola”
E eu a contemplava
Só que ela fez que foi, mas não “fondo”
E eu “sifu”

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Pálpebras fechadas (poesia)



Abri os olhos e vi ratos, um beco imundo e um cano por onde saía mijo e merda.




Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos:
E a vi com seus cabelos drapejados pelo vento e senti o perfume dela me inundando as narinas.




Abri os olhos e vi gente matando gente, estupros, pedófilos e tarados.




Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos:
E ela tenta me fazer sambar um samba e eu morro de achar graça com a minha inapetência para danças.




Abri os olhos e vi o Dalton Trevisan jogando pôquer com o Charles Bukowski e dois travestis defecando num cantinho numa esquina.




Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos:
E ela pede para eu comprar um celular e eu invento uma esfarrapada desculpa e a gente se queda rindo da minha bobagem.




Concluo que é melhor sonhar de olhos fechados:
E plic, plic, plic... bato as pálpebras e fecho os olhos para nunca mais abri-los.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Morena (poesia)


Entra na pizzaria uma tentação morena
Corpo semi-desnudo revelando partes da sua carne da cor produzida pelo sol abrasador de Manaus
Trazia entrelaçada ao seu braço vossa companhia


Uma voz chama-a
E a tentação larga da companhia e vai ter com o dono da voz - um homem de uns 50 anos -
E o senhor lhe faz cosquinhas nas nesgas de pele que ficam à mostra


Papo vai, papo vem e o homem lhe oferece um picolé de manga
- como na poesia do Antonio Cícero, A Onda -
E a tentação lhe fala que são 30 reais para transar
E o homem diz que tudo bem


E a tentação chega baixinho pra sua esposa e fala
vai pra casa, agora, que vou comer o tiozão
Sob veementes protestos da mulher, Carlos Wagner pega o cara do picolé pela mão
E vai embora falando assim: chore não, Joyce. Isso vai virar leite pro nosso filho
- falou ele em alto e bom som para todos na pizzaria ouvirem -

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Recortes do cotidiano (micro contos)


(Barbeia)

  • Olha que negócio feio da porra! A mulher com as pernas cabeludas!
  • Mas isso é da natureza dos mamíferos. Pelos são normais. A natureza, meu caro, é irascível.
  • Pô, mas uma giletinha custa uns dois reais. E vai dizer que você não gosta de uma perna lisinha....
  • É, gosto, sim.
  • Então “inrascível” é meu pau cheio de pentelho preto, certo?
  • Pentelho preto? Porra, bicho, uma giletinha custa uns dois reais.


(Sem palavras)

  • Nhã, nhã, dan, dan, dan...
  • Sai daqui mudo filho-da-puta.
  • Dan, dan, dan, ah, ah, ah...
  • Eita mudo chato do caralho. Sai daqui, porra, vai se foder que vou pegar meu ônibus.
(o mudo escreveu numa placa para eu ler, assim: sou mudo, não surdo. escutei tudo. queria devolver os R$50 que caiu do bolso dele).


(Smells like teen spirits)

  • Quanto você tem aí?
  • Não tenho dinheiro, não.
  • Tens um perfume cheiroso? Uma alfazema?
  • Não. Mas tenho um desodorante de sovaco.
  • Puta merda! Mas vamos mesmo assim, pois gostei de ti. E pelo menos meu sovaco ficará cheirosinho.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Serpente (poesia)


Ela me serpenteou - sem intenção de querer fazê-lo -
E laçou cordas em volta do meu pescoço
Que se apertavam cada vez mais e mais
Mas não era um arrocho pegajoso
Tinha um quê de gostoso
De verdadeiro


Tal qual cascavel que exsuda veneno
Ou jiboia que encanta com seu olhar e sua voz sibilante
Ela me envenenou e me hipnotizou
E me fez uma jura estranha. Assim:
me terás somente hoje, como se ela fosse de éter que entorpece depois evanesce
Ó “vaca profana das divinas tetas”:
Ejetais na cara dos que nada sabem das mulheres
O significado ardido e espinhoso de se querer ter e não poder se desfrutar


Querer ter e não poder é cruel
Derrama-se saliva pelos cantos da boca
E balbucia-se palavras peremptórias de um afã
De um afã que sai arfado
Querendo, mas não conseguindo, explodir num grito, assim:
VOCÊ É MINHA
Mas nada é do que jeito que a gente quer
E você, Serpente, decididamente não és minha
Nem estais na minha
Nem és de ninguém – como na “Quadrilha” do Drummond

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sono poético (poesia)



Com sono a gente não escreve poemas. A gente debulha uma mixaria aqui e outra acolá.


Com sono não há soneto. Nem pensar. Fazer soneto já é de uma complexidade enquanto sóbrio
- imagine-se bêbado por Morfeu -


    Se tens fértil mente pensante, ó Olavo Bilac fake, mestre da prosódia ridícula e da rima fácil e burlesca, guarde seus versos para si mesmo
    Só imagino um homem (já morto) fazendo sonetos à antiga
    Com a desenvoltura não-piegas
    Que lemos em As Horas de Katharina


Sono é sonar de improbabilidades poéticas
Favor escrevais vossos poemas lúcido quiça translúcido
Mas nunca de porre ou com os olhos por fechar
Poupem-nos da vergonha alheia de criticar um verso em público
E se dizer: isso é obra do impaupério artístico causado pela ausência de boa dormida


Tolentino bebia e cheirava cocaína (isso é fato)
Mas acredito que ele concebia seus elegantes sonetos
Sempre depois de um bom banho tomado e as energias revigoradas
Afinal uma mente ébria não comporia algo como:
“... é nesse encontro entre a paleta e a partitura
que uma cidade existe tal qual imaginei-a” (Bruno Tolentino, 2006, em A Imitação do Amanhecer)