sábado, 4 de fevereiro de 2012

A fábula do jegue (fábula)


Aqui tenho uma fábula sem moral. O legal dessa estória é que o leitor pode dar, seguindo seus sentidos multi-interpretativos, o tom que ele quiser à moral. Sem mais delongas, ei-la:


No alto sertão Nordestino, idos dos anos vintes do século XX, um homem estava sem ter uma mulher para si há quase um ano. O homem estava na maior secura. Eis que no afã de ele tentar encontrar uma mulher o coitado, frustrado por seus respectivos insucessos, vê um jegue ao pé de um cercado. Ele vê o jegue até jeitosinho e sem aquele pudor zoólogo, decide ir foder o cu do animal. O rapaz olha prum lado e pro outro se certificando que não há viva alma a passar por ali, baixa suas calças, levanta o rabo do jegue e empurra o pau com toda a força no bichinho. O jegue que não é bobo, quando sente a metade do pau entrar em seu cu, trava-o com toda a força e prende o rapaz afoito grudado aos quartos do animal. Começou o vai-não-vai e a agonia do homem querendo se desvencilhar do rabo asinal. Eis que o cara pensou: se o jegue aliviar o cu eu tiro meu pau daqui. Mas ao mesmo tempo o animal pensava: se eu aliviar o rabo ele arrocha o resto do pau dentro de mim. Eis que temos o impasse criado. O impasse do jegue onde fez-se um jogo psicológico no qual nenhuma das partes, a fodida e a fodedora, quiseram render-se. E dizem que o rapaz viveu o resto da sua vida preso ao cu do jegue.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Inversão Kafkiana (poesia)



Como na manhã do polonês, acordei de um sonho sudorento e nebuloso
Acordei-me transsexuado em uma mulher
E C transsexuada em macho


Mil insetos me mordam – e isso não é referência à novela do polaco –
Mas que encanto é esse?
Eu acordar como Vênus, ver C como Vulcano
E desejar que ela me fizesse seu?


Inexorabilidades à parte
Os desejos são comuns aos dois gêneros: homem e mulher
Ambos querem estar sexuais
Sempre mais
E eu senti um calor emanar das entranhas do meu baixo púbis
- transmutado em vulva –
Querendo C em mim, toda e plena com seu falo em riste
Quiça esse seja um desejo diminuído
- talvez triste –
Mas deliciosamente profano como um sussurrar quente
Que todos queremos nos nossos ouvidos


Franz Kafka e sua psicologiazinha
Não bastam para explicar meu desejo de ser rasgado por C
Não de forma racional – se bem que o limite do racional deixa de existir –
Sei que tratei de acordar C para consumar meu desejo
Mas ouvi uma voz grosseira e retumbante emanar de sua garganta
Dizendo assim: deixa eu dormir mais um pouco, pô

domingo, 25 de dezembro de 2011

“Bate outra vez” (poesia)



Hoje nasceu Jesus
Mas sou ateu e pornógrafo
Para mim nada de natal etc.
Para mim quero duas dela, uma por frente e outra por trás
Deliciosamente num ménage à trois: eu nela e ela em mim, loirissimamente deliciosa


Quanto mais agudo o meu desejo por ela fica
Mais oblíquo e obscuro e sujo e lambuzado e frenético ficam meus sentimentos por ti
Ela duplicada. Duas dela para nutrir meu desejo guloso.
Eu profanando o ouvido de uma delas com palavras de baixo calão
Ao mesmo tempo em que profano, numa deliciosa siririca, sua vulva dourada
E, é claro, sendo profanado pelo cu pela outra
E chupado e sugado e o esperma exaurido pela sucção da boca de quem me come o rabo
Delícias que só duas mulheres como ela podem proporcionar


Claro que isso é um onirismo idílico
Onirismo onanístico
Ela sozinha já saciaria minha sede por mulher
Duas dela, então, seria orgasmático demais
Morreria afogado, engasgado com muita água
Mas morreria feliz, felicíssimo
Com uma roseira trepando em mim

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Porque ouvir Madame Saatan? (resenha)



Costumo falar que ouço muito pouca música cantada em outras línguas que não o português. Por duas razões: não sou fluente em uma língua que não a vernácula e acho as construções poéticas feitas em inglês, principalmente, muito pobres. De modo que só ouço música cantada em não-português se a parte instrumental for muito boa. Exemplos há: metal (de uma forma bem genérica), post-rock (Sigur Rós, mais especificamente, que cantam em um dialeto que só a banda entende) e óperas (italiano, alemão etc.).

Nesses casos supracitados pouco me importa se o cara (ou mulher) tá cantando um ode de louvação ou mandando eu ir me foder, pois sendo o instrumental bom demais e o vocal agradável (a parte solfejada), eu nem faço questão de traduzir a letra que está sendo cantada.

Eis que uma banda do Brasil, a Madame Saatan (originalmente de Belém do Pará) me conquista mais e mais a cada audição. Madame Saatan faz um rock muito bem executado, com bateria (Ivan Vanzar) e baixo (Ícaro Suzuki) com pegadas pesadas e mãos firmes. A “cozinha” que se espalha por todo o resto da casa. A guitarra comandada por Ed Guerreiro é a síntese do metal. Nada tem de ritmos regionais (tem lá no fundo, mas muito no fundo mesmo). Sinto que na base e nos solos, Ed Guerreiro, cresce a cada acorde, a cada riff. A vocalista, Sammliz Sam, tem uma voz equilibradíssima, grave com suavidez feminina (sem ser grossa, sem ser afrescalhada) e o melhor: ela compõe e canta em português. E aí o motivo principal do porque principal de se ouvir Madame Saatan: devido a boa entonação do vocal, a gente consegue entender toda a letra sem ter que recorrer a um encarte. E melhor ainda: há inteligência nas letras. E melhor ainda ainda: vc, caro leitor, pode baixar o último álbum da banda Madame Saatan (Peixe Homem) de graça, no site da banda, sem pirataria e sem quebrar direitos autorais. Em: http://madamesaatan.com/

Não vou tecer comentários sobre esse disco (que eu achei, simplesmente, do caralho). Deixo o leitor fazer vosso comentário, balizado e sem pressões.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Siririca (poesia)

p/ P.



A palavra remete à imundície sexual?
Quem disse isso?
SI


Aliterações que nos levam a um plano imagético pleno
O entra e sai dos dedinhos
O roçar masturbatório num eterno rendez-vous ligeirinho
RI


Não consigo ver palavra que represente melhor um ato
- comum e banal -
Porque então relegar a essa palavra tão bela (“inculta e bela”)
um destino marginal?
RI


Acho que o ato por si só se justifica
Sem se precisar de palavra pudica
Fico com a sujeira deliciosa de se dizer
Que homem bate punheta e mulher bate siririca
CA


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ode (poesia)


Ode à galhada do veado
Fodam-se os maridos traídos e que dão showzinho
    - que se fodam - em uma foda triple

Traição só ocorre quando algo não vai bem, certo?
Não. Afinal, o que é traição?


Fodam-me o cu ao ver uma porra dessas:
A mulhera chorar por um cara que a humilha e a depaupera
Em via pública, com a gurizada a apontar, zombeteiramente, que ali há um corno


Engraçado é que o homem se exaspera
Como se ele fosse detentor da razão absoluta
Pois pare de tratar vossa mulher de modo vil, como uma puta
Ouça Chico Buarque - puta dum clichejaço -
Subvertenha a espera pela confirmação do chifre
E vá viver sua vida, plena e resoluta


Ode aos poetas, artistas metalinguísticos, que se escondem sob a capa de cientistas
E que produzem coisas belíssimas como “Cravo branco”
- que é um ode máximo à “traição”; coisa Shakeaspereana -
    E que quase me remete ao que presenciei ontem à noite:
    Por pouco eu não via com meus olhos verdes que a terra há de comer
    O careca levar um tiro do jovem que tirou “Nina, aquela puta safada” dele.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A medida da saudade (poesia)


Qual a medida da saudade?
Eu sei:
três pares de brincos na minha mesa


Olho para os brincos e os imagino na orelha dela
E imagino minha língua roçando seu rosto
E ouço ela me dizendo: “pare, homem de Deus”


“Ouço” entre aspas
Pois a saudade é uma alegoria imagética
As saudades são para sempre?
Infelizmente não sei

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Recortes do cotidiano (micro contos)


(Prosaico)

  • Quantos anos você tem?
  • 33.
  • Eu tenho 56. Mas até hoje uma das coisas que mais gosto é sexo.
  • Hum...
  • Mas minha atual esposa é bacana, participativa, cuida da casa e tal... Mas no sexo ela é fraquinha.
  • E como o senhor faz?
  • Aí tem as de fora, né?

(Coisa de bicha)

  • Isso em você são brincos?
  • Sim, são.
  • Mas brinco é coisa de mulher, certo?
  • Talvez.
  • Ou coisa de viado.
  • …
  • No meu tempo viado não se sentava junto com homem.
  • Época ruim essa a sua, hein, senhor?
  • Não entendi.
  • Por isso. Tá explicado: todo machão além de surdo é ignorante.


(Toma)

  • E essa chinela? Quanto custa?
  • R$30,00.
  • Mas aqui não tem chinela para macho, não, é?
  • Quando você entrou aqui tava escrito o que na placa: Casa do Sertanejo ou Casa do Fresco?
  • Casa do Sertanejo.
  • Então pronto. Aqui só se fabrica coisa de homem macho.
  • Mas eu não vi nada tamanho 44.
  • É que para viado do pezão tem outra loja. Aqui ao lado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Faxina (poesia)


Sete da manhã
E aquela maldita fresta de luz solar insiste em vazar do telhado
E cuspir um bom dia gostoso na minha cara preguiçosa
Olho para baixo e alcanço meus óculos
Enxergo um tufo de cabelos escuros, embolados, a ir e vir pelo chão do meu quarto
Aparo o tricobenzoar com a mão e desnovelo-o


Daí enrodilho um fiozinho em meu dedo indicador e levo-o ao nariz
Numa vã tentativa de respirar algum evanescente perfume
- resquício de uma bespa -
E nada, nada... Só o cheiro da queratina inodora


E começo uma faxina sem-vergonha em meu quarto
Varro tudo sem muita disposição e logo outras tantos tufos se juntam ao primeiro
“é muito cabelo”, penso eu
E penso também que aqueles resquícios dela são lembranças
De uma noite gostosa
Que reverberará eternamente enquanto durar tudo o que sinto por ela
- e vos garanto que o que sinto não é pouco -


E lembro-me da gente compartilhando os fones de ouvidos
E abraçadinhos
E ouvindo Maria Rita

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vermelho de bolinhas brancas (poesia)




Ela naquele vestido – linda
Como diria o Antonio Carlos Viana, branquinha da “cor da graviola”
E eu a contemplava
Só que ela fez que foi, mas não “fondo”
E eu “sifu”